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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O olhar da criança sobre a Escola de Educação Infantil


Uiliete Márcia Silva de Mendonça 

Nosso estudo objetiva investigar o olhar da criança sobre a escola de Educação Infantil e tem como sujeito da pesquisa crianças do Núcleo de Educação Infantil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (NEI/UFRN) das turmas quatro e cinco que têm, em média, 5 e 6 anos de idade.
Ao longo do trabalho, utilizamos uma metáfora — a pintura —, vinculando as partes do texto a alguns dos elementos constitutivos dessa área da produção artística.
Assim sendo, teremos, como pintores, as crianças; a tela será a escola de Educação Infantil, onde a criança pintará, através do seu olhar, as cores da escola; a imaginação, as combinações e os experimentos das cores serão construídos pelos olhares das crianças, representados pela pintura na tela; o ateliê será o lócus de pesquisa, o NEI; a matéria-prima será o aporte teórico, utilizado como respaldo na construção do olhar das crianças sobre sua escola.
O tema escolhido foi construído ao longo do curso de Pedagogia. Também consideramos como fundamentais para as decisões concernentes a esta monografia duas ricas experiências que vivenciamos: uma como bolsista voluntária no projeto de pesquisa Especif icidades da Alfabetização: na Pedagogia e na Andragogia; e a outra como estagiária do Núcleo de Educação Infantil.
A experiência como bolsista do NEI se iniciou no ano de 2005 e teve duração de dois anos. Ali, desenvolvemos atividades relacionadas à formação docente juntamente com duas professoras efetivas, numa sala de aula da turma dois, com crianças de faixa etária entre 3 e 4 anos de idade. Nesse período, já participávamos de alguns momentos do processo educacional dessa escola: o planejamento com as professoras, as reuniões de estudo e administrativas, as reuniões de pais e professores, a semana pedagógica, além do próprio fazer pedagógico em sala de aula, orientado pelas professoras efetivas.
As atividades desenvolvidas no NEI nos oportunizaram aliar a teoria à prática, o que é bastante importante para a formação docente. Como nos esclarece Freire (1996, p. 22), “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria–prática, sem a qual a teoria pode ir virando blablablá e a prática, ativismo”. Além disso, por trás da prática de um professor, há uma teoria que ilumina o seu trabalho, isto é, a prática é o fruto dos conhecimentos construídos pelo professor (WEISZ, 2001). Mas não basta ter o conhecimento teórico para agirmos conforme desejamos; a prática é muito importante, pois nos permite ratificar ou retificar a teoria, alicerce sobre o qual construímos conhecimentos, fazendo e refletindo sobre o fazer.
No início desse trabalho, era tudo muito novo, haja vista que, embora já tivéssemos atuado no Ensino Fundamental com crianças maiores, na Educação Infantil, com crianças pequenas, era a nossa primeira experiência.
Como bolsista do NEI, também aprendemos a concepção de criança adotada pela escola, percebendo que as crianças, ali, são consideradas sujeitos que possuem um olhar crítico, que pensam, agem e sentem como seres singulares, que têm direitos e deveres, como sujeitos humanos que se constituem, desenvolvem-se nas interações sociais, aprendendo, incorporando e ressignificando práticas culturais, ou seja, sujeitos que têm vez e voz na Educação Infantil.
Nesse sentido, convém salientar que Kramer (2003, p.91) defende uma concepção de criança que
Reconhece o que é específico da infância — seu poder de imaginação, fantasia, criação — e entende as crianças como cidadãs, pessoas que produzem cultura e são nela produzidas, que possuem um olhar crítico que vira pelo avesso a ordem das coisas, subvertendo essa ordem. Esse modo de ver as crianças pode ensinar não só a entendê-las, mas também a ver o mundo a partir do ponto de vista da infância, pode nos ajudar a aprender com elas.
É essa, portanto, a concepção de criança/infância do NEI. Nele, criança é considerada um sujeito central que constrói seu conhecimento, mediado pela ação significativa do professor, das outras crianças e da própria cultura.
Refletindo sobre a criança, considerando a importância de conhecê-la e reconhecendo que ela é sujeito que produz cultura, que pensa, que se expressa, surgiu o interesse em pesquisar o seu olhar sobre a escola de Educação Infantil — o seu papel, a sua finalidade —, verificando o que ela pensa sobre a escola em que estuda.
O critério de escolha das crianças foi a idade, porque percebemos que as do NEI apresentam, nessa faixa etária, características como: linguagem oral bem elaborada; possibilidades de troca oral das suas vivências; sentimentos expressos com mais fluência e segurança; narrativas com riqueza de detalhes; seqüência lógica nas exposições orais; relação de causalidade não mais centrada no eu (egocentrismo), mas numa lógica fundada na observação das coisas e dos processos reais; e maior grau de elaboração nas relações de espaço e tempo.
Além da importância do olhar da criança, Didonet (2003, p. 97) nos chama a atenção para o nosso olhar sobre a criança:
É preciso que haja um novo olhar sobre a criança e que esse olhar a encontre como pessoa. É preciso que se fortaleça o compromisso moral e ético com essa pessoa que chegou para viver, para desfrutar da vida, para expressar e expandir a riqueza do mundo.
Nesse sentido, também nos esclarece Kramer (2003,p.81):
Não podemos continuar a olhar para as crianças como aqueles que não são sujeitos de direitos. Precisamos aprender com as crianças, olhar seus gestos, ouvir suas falas, compreender suas interações, ver suas produções.
Para subsidiar teoricamente o estudo, recorremos a alguns estudiosos que têm contribuído para avançar o conhecimento na área em que desenvolvemos o trabalho: Kramer (1993); Freire (1996); Fontana e Cruz (1997); Vygotsky (1998); Craidy e Kaercher (2001); Leite Filho (2001); Oliveira (2002); Basílio e Kramer (2003).
Neste trabalho, a consulta a fontes documentais também se fez necessária, o que nos levou a estudar os seguintes documentos: Brasil (1998); Proposta Pedagógica do NEI (2004); Política Nacional de Educação Infantil (2005); dentre outros.
Para nortear a pesquisa, definimos as seguintes questões de estudo: o que pensam as crianças sobre as diferenças existentes entre a escola de Educação Infantil e a escola de Educação de Adultos? Como se manifesta o olhar da criança sobre a Educação Infantil? Como pensam as crianças acerca do professor e da escola de Educação Infantil?
Procurando entender o olhar da criança da Educação Infantil sobre sua escola, nos deparamos com as características, as especificidades da escola de Educação Infantil. O que é uma escola de Educação Infantil? Que características a singularizam como tal? Que espaços devem ser organizados nessa escola? E a formação do professor? Que função esse professor deve exercer?
Com essas inquietações, definimos como objetivo do trabalho: investigar o olhar da criança acerca da escola de Educação Infantil, em termos do seu funcionamento, da sua finalidade e do trabalho dos seus professores.
Em termos metodológicos, nos definimos pela abordagem qualitativa de pesquisa, pois, de acordo com Lüdke e André (1986), esse tipo de abordagem possibilita o (re) conhecimento da realidade em estudo, visto que enfoca mais o processo do que o produto, com a preocupação maior de retratar o ponto de vista dos participantes, além de ser um tipo de pesquisa rico na apreensão, percepção e descrição/explicação dos fenômenos. Como a pesquisa qualitativa se preocupa mais com o processo, ela se torna muito importante na obtenção de dados de um determinado grupo estudado, pois os dados não se dão num ato mecânico de registro, e sim num processo de interação, reflexão e atribuição de sentidos entre o grupo estudado e o pesquisador, possibilitando um melhor conhecimento do objeto de estudo.
Discutindo sobre a pesquisa qualitativa, Lüdke e André (1986, p. 11) fazem o seguinte registro: “[...] a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através do trabalho intensivo de campo”.
A construção dos dados foi realizada através da entrevista semidiretiva e pesquisa bibliográfica. A escolha da entrevista se justifica por ser este um instrumento importante que se caracteriza pela interação entre o pesquisador, a pesquisa e os sujeitos. Como os sujeitos são crianças, esse instrumento de pesquisa se tornou adequado, pois o entrevistado irá discorrer sobre o tema proposto, com base nos conhecimentos que dele detém. Assim sendo, buscamos um clima de estímulo e de aceitação mútua, fazendo com que as informações fluíssem de maneira autêntica. Sobre a importância das entrevistas, assim nos esclarecem Lüdke e André (1986, p. 34):
A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que ela permite a captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados tópicos. Uma entrevista bem-feita pode permitir o tratamento de assuntos de natureza estritamente pessoal e íntima, assim como temas de natureza complexa e de escolhas nitidamente individuais. Pode permitir o aprofundamento de pontos levantados por outras técnicas de coleta de alcance mais superficial, como o questionário.
A leitura dos dados construídos através da entrevista nos possibilitou a estruturação de um quadro-guia para nortear as análises, que se encontra a seguir organizado em três blocos de categorias, com suas subcategorias.
TEMA - Educação Infantil
CATEGORIAS - Escola de crianças / O bom professor de crianças / O NEI como escola de crianças
SUBCATEGORIAS - Diferenças com relação à escola de adultos / Características de uma boa escola / O que deve saber / Como recebe a criança na escola / O que ensina / Como ensina / Como procede com a criança que errou / Características dos professores / Espaços mais agradáveis / Acerca da rotina / Atividades mais prazerosas / Avaliação geral
Percebemos, através dos estudos teóricos, que uma boa escola de Educação Infantil deve ter profissionais capacitados e competentes, que assumam o binômio–educar–cuidar; que privilegiem as brincadeiras; que tenham uma rotina estruturante com atividades diversificadas e espaços organizados que permitam à criança se comunicar, brincar, aprender, viajar no mundo da imaginação, desenhar, dançar, cantar, enfim, ampliar seus conhecimentos.
Para que se construa um ambiente favorável para uma boa escola de Educação Infantil, necessário se faz:

[...] oferecermos às crianças um ambiente que propicie a cada uma — e ao grupo como um todo — a manifestação e ampliação de seus interesses e conhecimentos. As atividades e situações propostas têm, portanto, o objetivo último de favorecer a exploração, a descoberta e a construção de noções, ou seja, o desenvolvimento e o maior conhecimento do mundo físico e social [...] (KRAMER, 1993, p.21).

É incrível! Mas as crianças sabem muito sobre tudo isso.
Nesse sentido, Demartini (1997, p. 2) defende “reinterar a importância cada vez maior, em nossos dias, de aprender a ouvir as crianças e os jovens”.
É fundamental conhecer as crianças, pois elas nos revelam muitas coisas que são importantes para nós, adultos, refletirmos, haja vista que:
O olhar das crianças permite revelar fenômenos sociais que o olhar dos adultos deixa na penumbra ou obscurece totalmente. Assim, interpretar as representações sociais das crianças pode ser não apenas um meio de acesso à infância como categoria social, mas às próprias estruturas e dinâmicas sociais que são desocultadas no discurso das crianças (PINTO; SARMENTO, 1997, p.25).

Ouvimos as crianças. As cores foram misturadas, combinadas. A imaginação seguiu seu caminho... E, através dessa mistura de cores e da imaginação, as crianças revelaram seus olhares... Podemos, então, contemplar a tela! E não só isso!
As crianças revelaram que a escola em que estudam não está apenas no plano do ideal; essa escola também é real, porque as características desejadas, sonhadas pelas crianças, encontram materialidade no NEI — na sua estrutura física; nos seus “cantinhos”; na rotina que norteia a prática pedagógica; no acolhimento das crianças pelas professoras; nas aprendizagens que realizam; nas“viagens” ensejadas pela imaginação, embalada pela leitura de histórias e pelas brincadeiras; pelas músicas que ouvem e aprendem a cantar; pelas dramatizações que lhes permitem serem transportadas para outros lugares, outros momentos históricos, assumindo os mais diversos personagens.
Realçamos que a temática proposta neste trabalhoé instigante. Dessa forma, pretendemos aprofundar tal estudo futuramente, abarcando as questões em uma maior dimensão.
Chegando ao término deste estudo, consideramos ter alcançado o nosso objetivo inicial.
Consideramos também que a realização deste trabalho não se constituiu, apenas, no cumprimento de uma tarefa acadêmica. As aprendizagens decorrentes dessa experiência acadêmica foram bastante significativas para nossa formação pessoal e profissional, e suas contribuições estão para além de todas as palavras que possam ser ditas ou escritas.
Aos professores e aos demais leitores deste trabalho, fazemos um convite para uma reflexão sobre o modo de pensar e agir das crianças, suas significações, suas produções.
Considerando esta etapa de trabalho, chegamos! Mas acreditamos que, logo-logo, partiremos em busca de novos conhecimentos, porque não existe nada melhor que o prazer da renovação.

Fonte: http://www.construirnoticias.com.br/asp/materia.asp?id=1331).
Autora: Uiliete Márcia Silva de Mendonça
Curso de Pedagogia/UFRN – etinharon@ig.com.br
Orientadora: Profa. Dra. Maria Estela Costa Holanda Campelo
Departamento de Educação – UFRN – estelacampelo@hotmail.comReferências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília, 1998. v. 1, 2 e 3.
BUJES, Maria Isabel E. Escola Infantil: pra Que Te Quero? In: CRAIDY, Carmem M. e KAERCHER, Gládis E. P. S. Educação Infantil: pra Que Te Quero? Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 13–26.
DEMARTINI, Z. Infância, pesquisa e relatos orais. In: FARIA, A. L.; DEMARTINI, Z. B. F.; PRADO, P. D. (Orgs.). Por uma Cultura da Infância:
Metodologia de Pesquisa com Crianças. Campinas: Autores Associados, 1997. p. 1–17.
DIDONET, Vital. Importância da Educação Infantil. In: SIMPÓSIO DE EDUCAÇÃO INFANTIL: CONSTRUINDO O PRESENTE. 2003, Brasília.
Anais. A Importância da Educação Infantil nos Primeiros Anos de Vida. Brasília: Unesco Brasil, 2003. p. 83–97.
FELIPE. Jane. O desenvolvimento infantil na Perspectiva Sociointeracionista: Piaget, Vygotsky, Wallon. In: CRAIDY, Carmem M.; KAERCHER,
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FONTANA, Roseli; CRUZ, Nazaré. Psicologia e Trabalho Pedagógico. São Paulo: Atual, 1997.
FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
KRAMER, Sonia (Org.). Com a Pré-escola nas Mãos: Uma Alternativa Curricular para a Educação Infantil. São Paulo: Ática, 1993.
_________. Infância, Cultura Contemporânea e Educação contra a Barbárie. In: BASÍLIO, Luis Carlos C.; KRAMER, Sônia. Infância, Educação e Direitos Humanos. São Paulo: Cortez, 2003. p. 83–106.
LEITE FILHO, Aristeo. Proposições para uma Educação Infantil Cidadã. In: LEITE FILHO, A.; GARCIA, Regina L. (Orgs.). Em Defesa da Educação
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LUDKE, Menga; ANDRÉ Marli E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
OLIVEIRA, Zilma R. de. Educação Infantil: Fundamentos e Métodos. São Paulo: Cortez, 2002.
PINTO, M.; SARMENTO, M. J. (Coord.). As Crianças: Contextos e Identidades. Braga: Centro de Estudos da Criança, Universidade do Minho, 1997.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Departamento de Educação. Núcleo de Educação Infantil. Proposta Pedagógica. Natal, 2004. |Mimeo|.
VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente: o Desenvolvimento dos Processos Psicológicos e Superiores. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WEISZ, Telma. O Diálogo entre o Ensino e a Aprendizagem. São Paulo: Ática, 2001.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Artigo Educação Infantil: Prática Pedagogica

Educação Infantil

 4 a 6 anos BlogBlogs.Com.Br              Prática pedagógica

FONTE: Revista Nova Escola (Edição 217 | Novembro 2008)

O que não pode faltar na pré-escola

Para que as turmas de pré-escola se desenvolvam plenamente, é importante conhecer as características de cada faixa etária e fazer com que algumas experiências essenciais façam parte do planejamento. Veja aqui como trabalhá-las e por que são tão importantes

Beatriz Santomauro mailto:bsantomauro@abril.com.br e Luiza Andrade. Colaboraram Bianca Bibiano, Denise Pellegrini, de Curitiba, PR; Julia Browne, de Belo Horizonte, MG; Thaís Gurgel, de Sobral, CE; e Vilmar Oliveira, de São José dos Campos, SP.
Brincar

Por que trabalhar  Essa é uma fase de ampliação do universo de informações: a mamãe é vendedora, o papai é motorista, o herói preferido voa, o livro de histórias fala de uma princesa bonita e corajosa. O meio de processar e assimilar tantos assuntos - enfim, entender o mundo - é brincar de faz-de-conta. "A complexidade da fantasia criada depende das experiências já vividas. Por isso, é fundamental oferecer ambientes ricos em possibilidades", afirma Zilma Galvão, da USP.
BRINCAR Nessa fase, a turma já compartilha momentos no parque (à esq.) e no faz-de-conta (direita).

O que propor  As crianças ainda se divertem com os brinquedos de encaixar ou no parque, mas na pré-escola ganham destaque os jogos de regras - que exigem cumprimento de normas, concentração e raciocínio - e, principalmente, os simbólicos, em que se assumem papéis. Elas se apropriam dos elementos da realidade e dão a eles novos significados. Por meio da fantasia, aprendem sobre cultura. Ao dar bronca em uma boneca, por exemplo, os pequenos usam frases ouvidas de diálogos dos adultos, da TV e, em especial, de livros de histórias. A literatura traz elementos ausentes do cotidiano.

A meninada vai se tornando capaz de interagir com as brincadeiras por um tempo maior e considerar que os outros podem participar também. "No faz-de-conta, acontece algo íntimo que não se deve atropelar. O professor contribui com um gesto, uma palavra ou um brinquedo, mas a turma é livre para aceitar ou não", explica Zilma.

Uma boa estratégia para enriquecer o brincar é atrair a garotada para espaços diferenciados, como o canto da casinha, do salão de maquiagem, da mecânica ou da biblioteca. O cenário, por si só, avisa a proposta da brincadeira e pressupõe papéis. Depois, com o tempo, o grupo mesmo produzirá outros.

Esta pré-escola faz  Na CMEI Patrícia Galvão, em Guarulhos, na Grande São Paulo, o brincar é encarado como uma situação cotidiana e um direito das crianças. Em todas as salas ficam fantoches, fantasias e cenários para as atividades simbólicas, bastante apreciadas. Quando enjoam, os pequenos vão à brinquedoteca e os trocam por outros. Não são raras as vezes em que a turma de 4 anos se empolga com um livro lido em sala, corre para o canto em que ficam as fantasias e assume o papel dos personagens. Segundo a diretora Djenane Martins Oliveira, para garantir e melhorar as possibilidades de experimentação lúdica, os pequenos têm acesso diário a brinquedos de variados materiais, como tecido, plástico, madeira e espuma. Há também aqueles que não parecem, mas são brinquedos também, como pedrinhas, grama e areia. "Sempre temos à disposição das crianças caixas de papelão, que elas usam para produzir objetos que são incluídos nas atividades por elas mesmas."

Linguagem oral
Por que trabalhar  No início da pré-escola, coloca-se um importante desafio em linguagem oral: não apenas falar, mas antecipar e planejar o que se quer dizer. "Para que isso aconteça, ou seja, para que a oralidade seja usada cada vez mais e de melhor forma, é preciso trabalhá-la diariamente com base em diferentes temas, contextos e interlocutores", diz Maria Virgínia, da Editora Moderna.
LINGUAGEM ORAL A fala se aprimora em contextos diversos, como na roda de conversa.

O que propor  A escola deve oferecer um ambiente que estimule a comunicação verbal - não apenas em sala mas também no refeitório, no pátio, na brinquedoteca, nos corredores. Para conversar, ali estão amigos, educadores, merendeiros, porteiros e diretores. Oportunidades tão distintas tornam as situações de fala mais ricas, elaboradas e complexas.

Os momentos são divididos em dois tipos: formais e informais. Os informais são, por exemplo, as rodas de conversa. Nelas, o professor faz uma proposição, por exemplo, a respeito de uma notícia da comunidade ou de algo que será feito depois, como uma receita culinária. Nesse momento, cada um ouve o que os outros têm a dizer, coloca sua opinião e inicia os próprios relatos.

Situações formais são aquelas em que as crianças se dirigem a outros interlocutores que não os próprios colegas de classe, como outra turma, para quem vão contar uma história, ou um adulto a ser entrevistado. Assim, ao longo de toda a pré-escola, são desenvolvidas e aperfeiçoadas competências como a de recontar histórias e elaborar perguntas, declamar poesias e relatar acontecimentos do próprio cotidiano ou de outras pessoas. De acordo com Maria Virgínia, "o resultado é que os pequenos aprendem linguagem e com a linguagem".

Essa competência também é potencializada por meio das brincadeiras com as palavras presentes na tradição oral, nos textos poéticos e nas parlendas, por exemplo - que já contribuem para o aumento do repertório verbal desde a creche.

Esta pré-escola faz  São diversas as experiências de desenvolvimento da linguagem oral na UMEI Mangueiras, em Belo Horizonte. Lá, as rodas de conversa sobre o planejamento do dia abrem as atividades, mas outros temas também fazem parte do bate-papo. Na sala ou no pátio, elas recontam histórias e apresentam músicas e dramatizações. "Os mais velhos ajudam no desenvolvimento da linguagem dos menores durante atividades corporais. Eles criam canções e gritos de guerra e os pequenos se juntam a eles, cantando também", conta a vice-diretora, Mônica Freitas Mol de Andrade.

Movimento
MOVIMENTO Na pré-escola, as crianças planejam as ações, como onde se apoiar para subir no escorregador. Foto: Marcos Rosa
Por que trabalhar  Na pré-escola, a criança já tem desenvoltura para se comunicar verbalmente. Mesmo assim, o movimento ainda é um meio de expressar o que ela quer. Por isso, eles continuam a ser valorizados na pré-escola. Nessa fase, ela se torna mais ciente de si, conhece mais o corpo e ganha competência para atuar no mundo. "Por isso, é preciso evitar a tendência de deixar atividades desse tipo de lado com turmas a partir dos 4 anos", diz Maria Paula, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

O que propor  Atividades como danças, jogos esportivos e teatro aumentam e fazem evoluir as possibilidades com o corpo. Ações como segurar o talher e o lápis e usar a tesoura se aprimoram, mas não adianta promover "treinos". "As habilidades se consolidam apenas diante das necessidades reais", explica Maria Paula.

Em especial entre os maiores, de 5 e 6 anos, a capacidade de planejar as ações de movimento se amplia. Por isso, atividades ao ar livre, no parque, se tornam mais ricas. Para se divertir num escorregador, as crianças conseguem observar os degraus onde pisar e calcular o que fazer para chegar ao topo e depois deslizar.

Esta pré-escola faz  A professora Magda Carvalho Aranda, da CEI Maria do Rosário Bastos, em Poços de Caldas, a 465 quilômetros de Belo Horizonte, propõe jogos corporais para as crianças de 5 anos. Em um deles, elas batem palmas, levam as mãos aos pés e também à cabeça. Após uma seqüência simples, a turma combina movimentos mais elaborados, como levantar a mão esquerda e se manter apenas sobre o pé direito, favorecendo o equilíbrio. A mesma atividade pode se tornar mais divertida se acompanhada de música com ritmos cada vez mais rápidos. Outra brincadeira que os pequenos curtem é a da maria-fumaça. "Conforme o ritmo de um chocalho acelera, o corpo entra no embalo, com movimentos de braços e pernas", explica Magda.

Arte
Por que trabalhar  As experiências desenvolvidas em música e artes plásticas, de acordo com Silvana, do Avisa Lá, têm papel primordial na formação do pensamento simbólico. "Ambas exercem forte influência no desenvolvimento da criatividade e da imaginação." Nessa fase, as duas linguagens já são trabalhadas de forma separada.
ARTE O desenho, feito com materiais como o carvão (direita), e a colagem com lã (à esq.) se aprimoram.

O que propor  É essencial ampliar o repertório de canções, promover o contato com instrumentos variados e explorar os sons da natureza e dos feitos com o corpo, além do silêncio. O bom projeto é o que permite conhecer e criar.

Em artes visuais, é importante apresentar obras de pintores famosos - para ampliar o repertório e trazer riqueza ao trabalho dos pequenos -, mas não como pretexto para propor cópias. Nessa fase, o ideal é desenvolver cada vez mais o desenho e a pintura, em atividades diárias. Não é necessário usar grande variedade de materiais.

Esta pré-escola faz  Nas salas de préescola do CMEI Dr. Arnaldo Carnasciali, em Curitiba, sempre há nas paredes uma pintura, gravura ou fotografia para ampliar o repertório dos pequenos. Durante um projeto sobre identidade, as turmas fizeram retratos. Olhando no espelho, cada um produziu o seu, usando lã e barbante para compor os cabelos, por exemplo. Todos desenharam também o amigo, aprimorando a percepção sobre o outro.

A experimentação musical inclui a exploração de estilos diferentes, como cantigas de roda, músicas clássicas e canções do folclore brasileiro. "Essas situações ampliam o repertório, favorecem a concentração e permitem o desenvolvimento de habilidades como o ritmo", diz a diretora, Vanessa de Sousa Martinez.

Leitura e escrita
Por que trabalhar  É um adulto leitor que mostra às crianças o significado da escrita que está nos livros. Ao escutar uma história, as turmas entram na narrativa e compartilham as sensações dos personagens. "É hora de ampliar o repertório e dar maior organização ao pensamento", diz Débora Rana, coordenadora pedagógica de Educação Infantil da Escola Projeto Vida, na capital paulista.
LEITURA E ESCRITA Conhecer os gêneros (direita) é o melhor meio de entrar no mundo dos textos (à esq.).

O que propor  Durante as rodas de histórias, o grupo é capaz de escolher os livros prediletos, acompanhar a obra de um autor, opinar e fazer relatos. Quanto maior a variedade de gêneros, melhor: contos, poesias, parlendas, quadrinhas, gibis, lendas, fábulas, bilhetes, crônicas, textos informativos e instrucionais.

A leitura diária de diferentes gêneros pelo professor aumenta cada vez mais a curiosidade e o conhecimento sobre a linguagem escrita. "Aos 4 anos, já é possível recontar textos e aos 5 produzir as próprias histórias, ditando o texto a um escriba", afirma Débora.

Esta pré-escola faz  Na Creche Conveniada Lírios do Campo, em São José dos Campos, a 97 quilômetros de São Paulo, a pré-escola tem acesso a textos de diferentes gêneros, desenvolve atividades de reconto de histórias, leva livros para casa nos fins de semana, cria poesias e é estimulada a escrever. Mesmo durante as brincadeiras, surgem oportunidades de enriquecer a escrita. "Quando inauguramos o canto do cabeleireiro, visitamos um salão de beleza. Depois, foi produzido um texto sobre o encontro com os profissionais e elaborada uma tabela de preços", relata a coordenadora pedagógica Ana Lúcia Rodrigues da Silva Ferreira.
3 perguntas
Lino de Macedo
Lino de Macedo

Professor do Instituto de Psicologia da USP fala sobre o desenvolvimento dos 4 aos 6 anos.

Como se caracteriza o pensamento da criança pré-escolar?
Ele é principalmente substitutivo e imitativo. Substitutivo porque ela descobre que objetos, pessoas e ações podem ser trocados ou evocados por outros. Imitativo porque ela entra no universo da ficção: imagina e faz correspondências.

De que maneira o faz-de-conta desenvolve as linguagens?
No faz-de-conta, a criança realiza um esforço de tradução. Ela não é velha, mas representa esse papel no jogo simbólico. Também não é um bicho, mas pode imitá-lo. Esse fingimento aumenta o repertório das diversas linguagens, como o desenho, a fala, a música e a dança.

Como aproveitar a capacidade de representação?
A criança descobre simbolicamente a importância do adulto em sua vida e as diferenças entre ambos. Isso ocorre, por exemplo, quando ela faz de conta que é mãe e repreende o fi lho. Cabe ao professor, portanto, possibilitar que ela entenda essa assimetria e, ainda que intuitivamente, o valor do adulto.

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